Singela homenagem aos meus amigos atrasados, desleixados...

Porra Ana, Corra! (Rascunho do Roteiro do Interdisciplinar Curta de Celular)


Ana está na cozinha de Flávio em mais uma tentativa desesperada para falar com Vinicius. Na sala, a galera pula e dança ao som do mais deprimente som dos anos 80. A festa se resume a mais ou menos 5 ou 6 gatos pingados, bêbados e drogados. Quando finalmente Vinícius atende ao celular, Ana berra para os amigos fazerem menos barulho.

“Vinicius? É a Ana, meu...você sumiu, eu to te ligando a horas...”
“Oi Ana, o que você quer? Já estava de saída...”
“Saída para onde gato? A gente precisa se encontrar, não vai dar mais para adiar, a gente precisa resolver tudo isso agora!”
“Agora? Impossível, eu já to me preparando para dormir...”
“Você me disse a pouco que estava de saída...você está de saída, ou vai dormir?”
“Aha há há há ha os dois...vamos marcar um dia então para conversarmos assim nem eu e nem você perderemos mais tempo, tudo bem?”
“Ok, gato... às 10... tá legal, tá certo, meu... eu vou estar às 10 em ponto!”
Ana desliga o celular, joga-o longe e se joga na sala com os outros para dançar.

Vestida com sua micro saia preferida e botas que lhe machucavam os calcanhares, ela começa a dançar, enquanto seus olhos procuram um bom motivo para continuar naquela festinha chata.
Até que sua Amiga surge do meio do povinho com um sorriso de lado e sacana, com uma garrafa de vodka barata na mão direita, e na mão esquerda várias balinhas coloridas, as favoritas de Ana. E ela pensa: A razão de estar aqui nesse troço chegou! Segue dançando até chegar mais próximo da Amiga, pega 2 comprimidinhos, joga-os na boca e espera.

Como era fácil entregar-se assim, a qualquer momento barato de diversão, com qualquer um, pois ela vivia a famosa “época de curtir o momento”. Todos continuam dançando na sala, sem a menor noção de tempo e espaço. Todo mundo em uma sala pequena, compostas de móveis comprados a prestação nas casas Bahia, aglomerados. Muita bebida pelo chão, droga rolando, som muito alto.

Dor de cabeça. O primeiro pensamento do dia. Mas que dor, mas que cheiro é esse? Pinga com xulé, sei lá. Todo mundo tava dormindo com todo mundo na mesma sala onde, na noite anterior, gastaram suas energias “dançando”.
Ana engatinha pela sala, ainda sem entender onde está. Segue pulando os corpos caídos um por cima dos outros, a procura de alguma coisa que ainda está tentando entender o que era. Ouve um bip vindo de um celular. Onde está sua bolsa? Eu estou de bolsa?

“Meu, onde ta minha bota...minha roupa! Quando finalmente consegue fixar seus olhos em um relógio...”
Porra Ana! 9H30, Caralho, fudeu! Ana levanta-se cambaleando, coloca a primeira roupa que vê pela frente, passa por um espelho apressada, volta para dar uma ajeitadinha no dente...e corre.
Ana corre desesperadamente. Passa pelas dependências da casa. Corre pela rua. Chega até o ponto de ônibus, mas desiste, a lotação tinha acabado de passar. Ela para. Olha para um lado, para o outro. O que ela tinha dito ao Vinícius na noite anterior ainda ecoa em sua cabeça: ”vou estar às 10 em ponto!”. Então, ela começa a correr novamente, como louca pela rua.

Seu pensamento ainda confuso pelo estrago na noite anterior é mais rápido do que suas pernas. Começa a lembrar-se de todos os furos que já tinha dado. De todos os horários que havia perdido. De todos os compromissos que havia esquecido. “Eu não acredito, meu”... repetia para si mesma em voz alta. Ela não se importava com mais nada naquele momento, somente em correr, em cumprir um simples juramento que tinha feito a Vinícius.

Todos os obstáculos que encontrara em seu caminho, a velhinha que derrubou no chão. O gato que ela pisou. A barraca de frutas que ela levou por quase meio metro. Era como se ela tivesse quebrando suas barreiras, todas suas falhas cometidas. E ela pensa (narração): “Porra, meu, o enterro do meu avô, kra... quando cheguei o velho já tava a 7 palmos embaixo da terra... meu, amaaaava meu avó, meu...”
“Meu, o Vini meu, ele não vai me perdoar nunca mais...eu não acredito Ana... eu só dou mancada!” Ana continua a correr, quanto mais corre, mais precisa correr. “Eu sei que tudo tem seu tempo, sei que tudo tem seu momento, mas amanhã será tarde demais.” Ana corre, corre e corre.

O local está lá, parado, vazio, morto. Ana chega, consegue avistar um relógio: 9h59! Ela diz: “não acredito, meu... eu consegui! Eu venci... eu consegui, meu... cheguei antes dele...” cai ajoelhada no chão, morta. E ali espera. Sentia tudo diferente, sentia-se responsável. Pela primeira vez na vida fazia algo certo... relacionado ao horário, calma!
“Como é chato ficar aki esperando....que saco!” e ali ela espera, espera e espera. Tira até um cochilinho. Acorda, volta a sentir-se responsável e feliz novamente. Mas esse sentimento rapidamente se transforma no maior saco cheio da história de vida de Ana. Já não sabe mais o que inventar para passar o tempo. Levanta-se e procura o relógio. 10h15. “Cadê você, meu...”
Rapidamente seus pensamentos voltam... aí ela se lembra novamente do enterro do avô, e fala : ”já pensou que saco seria ficar olhando pro velho ali morto dããã....eu gostava dele vivo...aquele povo da família me enchendo de perguntas...merda!” Então Ana começa a rir. Começa imaginar a chatice aguda que seria se ela tivesse chegado no horário no dia da colação de grau da irmã... ela volta a se lembrar das coisas que a afligiam enquanto corria, e ria. Ria como uma louca.

“Meu, ainda bem que eu me atrasei ontem no trabalho... ou eu ia ter que ficar levando água para aquele idota...” agora ela se joga no chão, cansada de tanto rir. “Ainda bem que eu sei aproveitar meu tempo, meu... o relógio. 10h47! “Porra, Vinícius”! Ana procura seu celular. Tinha esquecido. Vai até um orelhão, liga para a casa da festinha.
“Alô, meu... pega meu celular cara, e me passa o cel do Vinícius, meu, aquele trouxa, ele me deixou aqui esperando que nem uma idiota!”
“Oi... seu celular, né? Peraí”. Ana rói a unha enquanto espera. Subitamente lembra o número, desliga o telefone.

“Oi, Vini?”
“ Ana? Oi...nossa, bom dia!”
“ Cê tava dormindo?”
“ Ué, tava. Por quê?”
" Meu, Vini, eu tô aqui te esperando...pela primeira vez na vida eu chego no horário e você tá dormindo, eu não acredito”
“Como assim Ana, chegou no horário onde... onde é que você tá sua maluca!”
“Tô aqui, meu, no lugar onde a gente combinou, às 10h, lembra, eu não acredito, meu...”
“Ana...você é louca? É louca mesmo né...a gente combinou às 10h....mas era as 10 da noite de amanhã, Porra!”
“Você tá vendo algum movimento aí, tem alguém aí?????”
Tempo para pensar..................................................
“Putz!!!”

Sabe o que é mais Insolente? Tem um monte de gente por aí que se encaixa perfeitamente nessa história. 
O Insólito? Não tenha dúvidas, isso poderia ter acontecido comigo.

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